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23.8.10

A bossa, a bosta, a fossa e a foda.


É, sei que é feio sair falando palavrão por aí, de voz alta, boca suja, corpo sujo, cara suja e roupa lavada. Deve ter sido o esmalte cor de asfalto azul com nuances de petróleo da minha unha, junto com a vontade de dançar no cano e descer até o chão, abaixo dele, de um lado, do outro, dentro e fora do quadrado. 
Andar descalça pela calçada molhada deixa os pés sujos também. Pelo menos, dá pra esconder depois. O restante é mais difícil, e eu não vou continuar esta frase falando que a parte mais difícil de se esconder a sujeira é a alma, por mais que eu e ela saibamos que esta é a verdade. Ela diz pra mim que meus pés precisam ser lavados pra não deixar marcas no chão, pra esquecer como é que se volta aos lugares. Ainda tenho um pouco de pena de não deixar caminhos.
Detesto cheiro de lembrança ruim, principalmente quando é cheiro recente. Vem o vento do porto e espalha tudo pela cidade inteira, e não há ocupação de cabeça que faça esquecer a vida.
Então, eu sigo andando sem meu sutiã achando que sou feminista porque eu bebo, sentindo meus seios balançando e achando que eles são iguais aos da Brigitte Bardot.
Meus eixos linguísticos são estão fracos.


21.11.09

Virginiana Sem Lar.

No embaçado do dia seguinte, você não sabe se tem dor-de-cabeça, se vomita, se engole água tônica para dar vida para a vida que você deixou esquecida na porra da mesa (ou no banco, não sei). Aquela vibração que ficou descontrolada e saiu rodando e dançando e cantando alto demais e acabou te deixando tão tonto que nada faz parar de girar, de rodar, de cantar e, no fim, você chora no banco da rua e não sabe se é choro de vida, de morte ou de música, ou de amor, de carinho, de falta. Pode ser só água demais no corpo. Choro de gin. Dá pra sentir o cheiro.
Pra melhorar, vem a ladainha de quem já entrou em coma. Entra por um lado, sai pelo outro e, por um momento, você mistura o bafo de cerveja com consideração e deixa de desejar que morra (o autor da ladainha, não você mesmo).
Eu não lembro porra nenhuma que eu cantei, mas sei que eu cantei e não foi da minha voz, foi d'alma. Rodei e tropecei e chorei a noite toda, acordei hoje e não sabia o que era certo e o que era errado. F***-se o clichê (asteriscos em respeito às freiras).
Ela, sempre ela.

29.10.09

Louca Sem Destino.

O sofá, sempre. O que há no copo, rotativo.
Não falo de álcool. Rotação, neste caso, envolve gasolina, de qualquer tipo: de corpo, de som e de combinações, por exemplo.
A observação me encarava porque já era a quinta vez que o arranjo cruzava a sala, batia na parede e caía na minha cabeça. O problema disso não era por eu ser sempre malcriada, mas porque eu simplesmente deixava. Quando tudo pulava, eu pulava junto, até parar de pular. Cansada, eu caía em mim, e era isso que deixava a observação fora de si.
Sinceramente, não dava muita importância até o dia que ela parou de me fitar... confesso, fiquei preocupadíssima. O que eu queria muito mesmo era continuar pulando, sabe?
De saco cheio, um dia, eu deixei a janela aberta.
O arranjo fez o de sempre, naquela altura, pela octagésima vez. Não foi na minha cabeça que ele bateu porque estava muito contente sem a observação, diferente de mim.
Ele voou pela janela, deu pirueta no ar e eu fiquei só olhando, com os olhinhos brilhando.
Foi tudo tão mágico que eu vi o brilho refletido no arranjo maluco e voador e ele, sacana!, fez questão de espalhar pra todo lado.
Num determinado momento, ele ficou parado no céu, longe e caiu. Em um minuto ou dois (ou mais), ele subiu de novo.
Trouxe uma gaita, um banquinho, uma companhia e encheu o copo.

17.10.09

Silêncio.

Levei o Sartre pro show de grunge, não deu certo.
Peguei na mão do Guimarães e levei pro rock, ele disse que disse. Eu não tive tempo de entender, então, ele foi embora.
Convidei o Drummond para o samba. Sentou na mesa, olhou pra tudo e dormiu.
Quis dançar com o Camões a MPB do Caetano feliz, ele viajou demais.
Prometi que não levaria ninguém para o blues. Principalmente os alemães.
Então, peguei um papel, uma caneta e escrevi o silêncio, até que os dois ficassem bem juntinhos.
Sambei sozinha meu próprio som, num bequinho qualquer.
Voltei pra casa bêbada de tanto vazio.

12.10.09

O Clichê do Filgo.

Pensando e percebendo... bluseiro não curte fígado (clichê).
Um dia, eu, num sebo (sem nada para fazer e quatro reais no bolso... trágico), achei uns livrinhos tchans numas daquelas prateleiras cheirando a calcinha de véia. Lá, havia um chamado Poema Bêbado, de um Zé ruela chamado Milton blablablá (me esqueci) e tive a feliz ideia de comprá-lo. Um realzinho e tal, barato, etc...
O cara dividiu o livro em poemas chamados de doses. Legaizinhos até, há 33 deles chamados assim. Lá mais pro fim, ele fez dois poemas bem mais legais que os outros: e um chamado Dose Especial aquela que nem se lembra que entrou - nem se já saiu e não se viu) e um último, chamado Tributo ao Fígado.
Este ben-maldito poema lembrou-me que o Rory Gallagher não existe mais por conta do fígado, e tantos outros também não existem mais por conta dele (e também por umas fumacinhas extras e etceteras que não nos diz respeito).
Aí, me deu uma puLta vontade (o L é pra dar profundidade ao palavrão) de compartilhar um trechinho deste poema, que nos remete, também, à música:

"ele é o ritmo
eu sou a melo
dia
sem ele bem
não existe harmonia"


Tchau, Rory!